Quarta-feira, Maio 16, 2012

últimos dias


Os segredos que levo comigo não me servem de nada.
Havia um lugar para os edificar, bem altos,
Os meus talentos, as dores que me superam, ideias que não ganham forma nunca,
Todos eles teriam um lugar no mundo.
Se não os fizesse segredos, todos eles seriam grandes.

Deveria ter gritado mesmo que apenas as paredes me ouvissem.
Um dia chegaria às pessoas
E no outro aos deuses.
Talvez noutra vida,
Talvez com maior entusiasmo,
Talvez noutro dia.

Outrora fui,
Talvez sem grande expressão,
um génio em potência.
Hoje sou um trapo velho, uma camisola rota num canto,
Talvez sem grande expressão,
Talvez por me ter faltado opinião.

Deixei o comboio seguir o seu rumo e a música descompassou,
As notas saltavam de linha para espaço e as claves dormiam na horizontal.
O ritmo fugiu como um passado desgastado que existe apenas na imaginação.

Já não sou.
Existo, talvez
Sem grane elucidação.

Larguei a sabedoria e a sensibilidade,
Surjo em pele, ossos e algumas veias pouco vivas

Mágoa por não ter sonhado como sonham os sonhadores.
Talvez sem nenhuma convicção,
Os segredos que trago comigo já não me servem de nada.

Segunda-feira, Maio 07, 2012

04h57


Havia uma festa divertida, quase tropical, As pessoas vestiam roupas frescas, mas tinham frio. Não muito. Havia sandes de fiambre e queijo cortadas em triângulos, como se fizéssemos 5 anos. À entrada da tenda que nos cobria, umas letras pouco habituais que formavam palavras estranhas. Acreditei que fosse algo como “Sejam bem-vindos”, mas fizeram-me notar que se lia “arrumem as vossas malas” e eu, pobre e atrasada, era a única que não tinha sido capaz de ler, era a única que ainda tinha a minha bagagem nas mãos. Não conhecia ninguém mas saia o nome das raparigas do meu quarto. Estava ali no meio, perdida, sozinha, com medo e nenhum desconhecido me via. Uma rapariga veio falar comigo, com ela vieram outras, acho que eram todas minhas amigas, supostamente. As únicas que tinha ali. Ela falou e eu, nervosamente respondi algo de que não me recordo. Começaram todas a insultar-me ofendidas e a desprezar-me porque não tinha tratado bem a única pessoa que se tinha prestado ao esforço de tentar que eu me tornasse menos ridícula.
Pediram-me que escrevesse um texto e só conseguia escrever sobre um pai que odiava o filho e queria vê-lo sofrer. Chamaram-se psicopata e aí já só sabia escrever sobre amor. Riram-se.
Não havia ali uma alma que quisesse olhar para mim de forma agradável e todos os meios modernos de comunicação com o exterior tinham ficado fora desta história. A única certeza que tinha é que nada mudaria durante o tempo que ali ficasse. Não sabia se eram seis meses ou uma vida, só sabia que estaria isolada.
E a esta hora, tu eras o único homem da festa. O único que recordo, pelo menos. Não estavas nem longe nem perto e bebias um sumo de manga enquanto te rias descontraído com uma rapariga que tinhas conhecido agora.
Estava desesperada comigo e, contigo, zangada: Quando estávamos juntos, nunca tinhas aceitado beber um sumo de manga!

Quarta-feira, Abril 25, 2012

Eu já não

‎"Eu próprio percebo pouco do que tenho para dizer. Mas tenho de dizê-lo. O que quero é fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.

Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo? O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso "dá lá um jeitinho sentimental".

O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende. O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe."

Elogio ao amor por Miguel Esteves Cardoso





Eu já não... Sou um desses montes sem vida que escolheu viver em vez de amar. Mas que quer voltar a amar um dia. Um dia quer deixar este carpediem ridículo que esconde o que é belo e nos faz fingir que somos superiores e felizes. Um dia serei um desses seres que ama. Um desses superiores verdadeiramente.

Quarta-feira, Abril 18, 2012

Rita, cacheadamente Rita

Suponho que essa gaivota seja mais um símbolo. Só que, perdoe-me, não o compreendo. Sou demasiado simples para compreendê-lo. Pequei. Errei. Não se deve amar um escritor, ele tem demasiado ego para entender o amor sem ser por escrito.
E não se pode amar uma actriz. Ela apaixonar-se-à por si como se de uma personagem se tratasse e não poderá nunca esquecer esse amor porque foi para isso que nasceu. Para se lembrar de tudo e cada pormenor ser um mundo, para reproduzir todas as suas memórias e dar-lhes valor. Inventar-lhes uma importância que eles, simples bocados de papel, não têm. E vão querer eternizar os homens que amam com um relicário do seu coração.
O senhor, eu não amei. Não, perdoe-me. Amei-o e amo-o. É como um irmão para mim.
Quanto ao homem que me destruirá, vou amá-lo até que ele, por simples falta do que fazer, me destrua como prevê nos seus contos. E é isso. Sei-o, mas amo-lo. E depois disso nunca mais serei dele, mas ele será para sempre meu. Pois eu eternizá-lo-ei e o seu espírito não se poderá soltar de tanta devoção.
Gostava de o poder fazer consigo, mas não sou capaz.
O senhor cansa-me e chega até a parecer-me pequeno, por vezes. Isso mata-me, destrói a minha alma, corrói-me não acreditar na sua grandeza como acreditei em tempos.

Sabe aquele momento em que não me amou? Aquele segundo ínfimo em que olhou para o lado? Ah, é ridículo e não quero que me veja a chorar por isto. Falo a sério, não me olhe assim. Nesse instante, fez com que eu deixasse de o admirar e ganhei-lhe um certo desprezo. Tenho muita pena disso porque não há volta a dar e perdi o homem da minha vida. Ah, mas se não tivesse olhado, se não se tivesse esquecido de mim. Você também tem culpa. Desculpe se me rio. Mas acontece-me sempre que falo em culpa. Mas é isso. Eu não o podia evitar senti-lo, o senhor sim, poderia ter evitado fazê-lo. Espero que não sofra com a bala que o atingir. Espero que a eternidade que não conquistou por estar tão obcecado com ela, não lhe pese na hora de ir.

Boa noite.

Domingo, Abril 15, 2012

Contradições

Só o amor pode superar o amor. Quando é o ego a superá-lo, esse amor pode agora ser muita coisa, mas nunca amor
A felicidade não está na solidão. Se isso é tão óbvio, porque tentamos sempre por aí? A independência pode ser acompanhada.

Há alturas em que chove e faz sol ao mesmo tempo. É estranho, mas é bom. E se o arco-íris é bonito, mesmo estando longe, porque não olhar? Apesar do aspecto doce, talvez seja salgado e saboroso. Talvez seja feliz.


Quarta-feira, Abril 11, 2012

moro numa rua de sentido proibido, nº5


Um dia perpetuarei o teu nome com o meu amor. Terás um ventríluco onde todos te poderão ver.
No momento de ires, haverá uma luz forte que nos anestesiará dizendo que o mundo é belo como o vemos.
Serás um morto mais vivo que quando estavas vivo.

Há um lugar no sol onde se pode pisar com os pés descalços e uma cratera na lua que me aconchega como uma cama confortável.
Parece que os lugares me andam a evitar, mas talvez seja eu que não os saiba ocupar.

Domingo, Abril 08, 2012

Infantilidades



se já não queres o meu coração, porque não mo devolves?
não é cruel?
se me amas, porque não ficas?
se não ficas, porque me amas?
se me amas, porque unes todos os esforços para que sofra?
se me amas e me deixas, como não entendes que fique de rastos e não te fale como se fosses a pessoa mais maravilhosa do mundo?
sabes, tens a noção, entendes mesmo que se um dia alguém te fizer metade, vais desprezá-la e fazê-la sentir-se a pior pessoa à face da terra, não entendes?

se me amas, porque não ficas?
porque és tão reticente ao arrependimento, à luta pelo que amas e que é frágil?
quero desistir, mas não tenho forças.

mas, meu amor, quem quer ficar fica, não é?
para quê todas estas ilusões, todas estas perguntas?
eu andava bem, a comportar-me como tu me ensinaste. alheei-me e podia sorrir por todas as razões.
hoje não é tanto assim. mas voltará a ser, não voltará?

promete-me que se voltares algum dia a rezar, que pedirás algo para mim. um sorriso, uma vida feliz, qualquer uma dessas coisas que tu tão bem sabias dar. pedes?

escrevo-o aqui porque contigo não posso falar. porque a tua parede está cada vez mais alta e não me queres lá.

amar assim, sem poesia nem rodeios é tão infantil.
tão infantil como os filhos que queria ter de ti.

Quarta-feira, Abril 04, 2012

vento sul


Há o sol que se põe quando uma estrela se opõe.
Há um lugar maravilhoso onde tocas levemente nas teclas deste piano longo e pesado e esse lugar poderia ser a minha mente ou um qualquer espaço no universo. Cabes em todas as letras e no mundo de forma inteira. És um sonho indecifrável que não quero entender.
És a surpresa dos meus dias e o calor das minhas noites. És o piroso, o kitsch, o lírico de cada pensamento e a luz que se acende nas horas mortas.
Há um túnel escuro onde vieste brilhar, há uma força de gravidade que vieste soltar, há todos os meus sonhos fechados num círculo que quiseste abrir.
Criaste o que poderia ser impossível e foste buscar o final da rede, que puxaste para cima. Salvaste todos os peixes e tornaste-te um herói.

Quarta-feira, Março 28, 2012

Cartópensamento


Amo-te tanto, meu amor, que guardo em mim todos os clichés do mundo. Parece um vulcão que me consome quando penso em beijar-te, uma força capaz de destruir tudo o que esteja no caminho, um sorriso gigante que se espeta nas costelas de tanto crescer e que magoa por não chegar a ti inteiro. Amo-te tanto, que já não me cabe, já não o consigo guardar para mim.
Apetece-me gritá-lo tão alto que o possas ouvir daí.
Dizer às companhias de aviação que têm a obrigação de apoiar algo tão forte.
Explicar aos físicos que não têm o direito de prender as placas tectónicas no lugar e deixar-nos tão longe.
Fazer os ministros compreenderem que as minhas horas e as tuas são as mesmas, e que não podem regular os nossos países por fusos horários diferentes. É antinatural.
Mostrar à filosofia que ela tem razão quando crê em algo superior ao corpo.
Provar aos monoteístas que o amor pode estar canalizado numa só via, sim. E que pode ser grande e incondicional.
À natureza, agradecer por me dar esta sensação de plenitude e ofendê-la por, ao mesmo tempo, essa plenitude me sufocar.
Às folhas e canetas, pedir desculpa pelo sacrifício, mas têm de trabalhar.
Às músicas de todos os géneros, cantá-las para libertar aquilo que não se vê.

E a ti, sussurrar que te amo e o que mais quero é poder voltar a tocar-te, sentir-te, beijar-te e levar-te a qualquer lugar do mundo ou não que te faça feliz.

Sábado, Março 24, 2012



hoje, de repente, queria ir ao teu blog e não me lembrava do endereço. hoje, apaguei as tuas músicas do meu telemóvel para não ser masoquista. e se não tivesse de esquecer mais nada? era tão bom.


imagino que queiras que eu siga em frente, que deixes de me lembrar de te falar a cada segundo. mas é tudo tão duro e injusto. lembro-me de mim, no banco de trás, a chorar e a dizer "mas eu gosto tanto dele" e de a tua irmã me responder "mas isso é bom. ele vai falar contigo todos os dias e daqui a um tempinho já estão juntos de novo. passa rápido."
nuns momentos sinto-me forte e capaz de desistir, noutros sinto que se não lutar estou a deitar fora o melhor que conheço.
e tu já nem és a mesma pessoa... já não me proteges, tornaste-te o assassino que me tem como alvo.
tens uma arma apontada à minha cabeça sem piedade e eu só quero beijar-te para que a deixes cair.
se amasse Deus, seria freira. isto de amar consome qualquer um.



Sexta-feira, Março 23, 2012

Sim!!


Como é que o teu amor, tão forte e tão sólido morreu de repente?
Eu vi-o suicidar-se, mas acreditava, honestamente, que existisse vida depois da morte.
Como não sentes falta de me agarrar na cintura?
De me arrepiares até te bater de desespero?
De me dares a mão por baixo da mesa enquanto jantávamos?
Comer sushi até rebentar?
Dares-me um copo de vinho e rires-te do meu percurso cambaleantemente controlado até a casa de banho?
Não, não sentes falta de nada?
Cantarmos juntos as músicas que inventavas?
Ensinares-me a fazer acordes toscos para que fingisse uma melodia?
Vermos filmes e adormecer no teu colo?
Escrevermos textos a meias e discutirmos os teus ou os meus?
Passear em Sintra? Noite na Ericeira? Voltar do bairro alto a cantares-me músicas?
Nada?
Jogares poker enquanto eu adormecia?
Rirmos enquanto fazíamos amor?
Passar a tarde agarrados mesmo que fosse a dormir?
Cupões e cupões de jantares fora?
A minha irmã, as tuas. Quando ficavas tenso em frente ao meu pai?
Chorares em frente a mim porque não és capaz em qualquer lugar?
Ligares-me às 6h da manhã arrependido de me teres largado?
Revelares os teus medos, as tuas inseguranças?
Teres sempre alguém que amas pronta para te abraçar e proteger?
Ralhares comigo e dares-me força da tua forma encriptada?
Seres o meu amor e eu ser o teu?
Sem mais nada, só isso?

Foi tudo imaginação minha? Como é que morre assim de repente? Como podes ter vontade de o largar sem uma razão forte?
Como podes desistir ao fim de um momento de tensão?
O universo responde-nos sempre que sim. E eu pensei com tanta força, tive tanto medo que “ele já não me quisesse mais”, que ele limitou-se a dizer-me “Sim!!”.
Rebaixo-me, sou a ridícula desta relação, entrego-me e sofro, corro atrás e luto por tudo o que ainda sinto. Porque o meu ego-ovo-eco-eu não interessa a ninguém, abandono-o pelas minhas crenças.
E já ninguém me lê. Talvez tu quando não tens nada para fazer.
Por isso, escrevo como uma criança tonta até que as palavras e gastem e já não haja mais para sofrer.
Disse ao Universo que, seja qual for o fim de tudo isto, ou mesmo que ele já tenha sido, que sairei sã daqui.
Agora estou à espera que ele, como sempre, me responda “Sim!!”.

Sexta-feira, Março 16, 2012

tudo o que eu queria


era sentar-me no teu colo como quem beija e chorar quando estivesse triste,
abraçar-te quando estivesse sozinha,
poder sonhar contigo a cada noite sem estar a roubar nada a ninguém
e fazer amor contigo sem ser pecado.


agora que já sabes os meus desejos mais egoístas,
deixa-me agarrar a tua mão.

as chaves que te deixo para um dia mais tarde


Não posso acreditar que já te dei o meu último beijo,
Que os nosso filhos não nasceram,
Que outras mãos me vão tocar e que vou morder outras bochechas.
Não consigo imaginar olhos tão bonitos como os teus
Nem lágrimas tão salgadas como as que provei.
Não é possível que o casal mais belo que conheço seja tão racionaló-intelectualó-aceitador, que tenha deitado uma vida feliz juntos a perder.
Raios partam os artistas e as mulheres com capacidade de ler mentes,
Raios partam as formas complexas de ver o mundo que não deixam as coisas simples acontecerem,
Raios acariciem os poetas que não podem ver a vida sem o prisma óptico de dividir as cores.
Não consigo que os raios te partam. Que eles nunca te partam e te ensinem o que eu não fui capaz. E que te tragam alguém que saiba dar-te tudo o que daria eu e mais um par de chaves.
Chaves para dar a esses guardas de chapéu comprido que há à tua porta e que não te deixam ser puro em tudo o que és.
Chaves para destrancar as muralhas seladas por anos de medo.
Chaves que abram umas portas e fechem outras.
E aí, eu juro-te, meu amor, juro-te que não há nada que seja um desperdício. No dia em que te emprestar o meu caleidoscópio e te deixar ver como se vê deste lado, vais ver que “não aproveitar tudo”, é não viver plenamente aquilo que se tem.
Depois disto, o que é que ganhaste e o que é que perdeste?
Em que consistiu esse aproveitar?
Eu também não quero “passar ao lado da vida” e é por isso que gostava de ver os meus netos arracarem-te os três pelos que jogam à sueca no ombro esquerdo. Mas se não for eu a ver… bom, será alguém mais próprio.

É isso aí,
Um vendedor de flores,
Ensinar seus filhos a escolher seus amores.
É isso aí!
Os passos vão pelas ruas,
Ninguém reparou na lua,
A vida sempre continua.

Quarta-feira, Março 14, 2012

Recuerdate de recordarme


Tu ojos, mi piel, un beso que es como una recta, no tiene princípio ni final.
Como se pode crer em pessoas que não são capazes de honrar o mundo que têm? Há mais pessoas que não conhecem a beleza do que as que a tocam e isso não pode ser mais revoltante, mais triste. Não sei lidar, nem sei se quero, com o desprezível lado humano que não semeia sorrisos a cada instante.
Demito-me do cargo de pessoa física. Serei apenas uma pessoa física quando me interessar e capaz de me imaterializar no segundo seguinte.
Una mano que me toca y me da asco. No la quiero. No la necessito.
Amar é das poucas acções que não se valida por si própria. Requer uma confirmação constante e repetida para que mereça esse nome.
Atenciosamente, vejo o teu olhar num dos meus cabelos mais encaracolados que dá a volta a toda a cidade em que tu vives. Numa espiral perfeita que termina em ponta espigada, há um beijo para ti.
Gostava de saber quais são as tuas palavras favoritas. Queria saber o que mais gostarias tu de ouvir. Não as ideias que tens, a verdade dentro de ti.

Solo una cosa más: nunca me hables de lo resquemor de no haber sido.

Segunda-feira, Janeiro 30, 2012

Entrega


Havia uma flor pequenina que te queria dar.
Todos os dias olhava para ti à espera que a quisesses.
Essa flor foi crescendo ao longo do tempo até se tornar do tamanho de uma árvore antiga.
E tu, já à sombra, reparaste nela.
Arranquei-a, montei um sistema de refrigeração automático para que nunca tivesse sede ou fome e tratei-a como um bebé frágil e que a única coisa que precisa de conhecer é afecto.
As suas folhas brancas e gordas começaram a colorir-se de um rosa forte. E o seu caule verde com uma folha catita ao estilo de desenho animado começou a ganhar vida e a dançar ao som da música.
Apaixonei-me pela flor, tanto tanto que já não a poderia largar nem deixar nas mãos de outro.
Levei-a a passear pelo parque, ensinei-a a andar de bicicleta, mostrei-lhe que as pipocas salgadas são melhores que as doces e comprei-lhe uns patins iguais aos meus.
Passou a fazer parte da minha vida e era o que me fazia feliz.
Não poderia guardá-la em nenhum lugar mais seguro do que na minha vida.

E foi aí que,
vendo os teus olhos tão brilhantes e sorridentes,
estiquei os dois braços e ta dei.

Segunda-feira, Janeiro 16, 2012

Imaginarium pela porta grande

Tanto tempo para esquecer-te e não te esquecer. Que tipo de injustiça é esta?
Prometemos a nós mesmos lembrar-nos eternamente de uns e de outros por terem sido importantes, reveladores, surpreendentes, apaixonantes… E esquecemo-nos. Sem grande aviso, sem perceber porquê, acabam por deixar de nos fazer sentido, falta. Mas e quando somos maravilhados? Quando vemos algo que é superior ao que cremos perfeito e se torna parte de nós? Um espelho dos nosso ideais, um exemplo dos nosso sonhos, uma prova do mundo inteligível? Há pessoas e há luzes. Os humanos é possível esquecer, as estrelas não. A sua memória dura mais que o tempo que viveremos aqui. Se o Sol demorará seis biliões de anos até desaparecer, quanto demorarias tu, se eu ficasse cá para ver e quisesse ver? A luz num quarto escuro, por mais pequena que seja, continua sempre a fazer-se sentir.

E o Sol, ao pé de ti, é só uma estrela.

Quinta-feira, Janeiro 12, 2012

Ressuscitar?

Há uma confusão entre o que é passado e futuro. Há uma confusão que não posso explicar. Há uma confusão que me alimenta a ilusão de que as coisas não são simples. E eu poderia viver toda uma eternidade se confiasse na simplicidade que é toda a complicação natural das coisas. Mas por causa de penas que deixei perto da janela e ousaram voar quando a abri, já não confio nisso. Quando algo parece duro e fere, é sinal que é algo para deitar fora. Era tão bom que não fosse… Era tão bom que houvesse lugar para enganos. Quando pensamos que amamos, queremos essa pessoa todos os dias ao nosso lado. Quando sabemos que amamos, temos de ter essa pessoa todos os dias ao nosso lado. Quando dizemos que amamos, amamos e isso de amar é mais forte do que parece. Domina-nos a nós mesmos e já não há grande controlo que tenhamos. E é por isso que gostamos do amor. Porque nos retira as responsabilidades e nos deixa planar.

E ela é explicativa e comenta. E é só uma introdução para algo que terá de ser diferente. E isso é simples. Simplesmente complicado. Por isso está tudo bem.

Terça-feira, Janeiro 11, 2011

a propósito

Quando morreres, não deixarei que te levem num caixão.

Não deixarei que te roubem a opinião.

Enaltecer-te-ei como aos meus olhos mereces e serás imortal,

Serás como quero, levem a bem ou a mal.

Serás meu como já agora és,

Ficarás a descansar perto dos meus pés.

Junto a mim dormirás como se vivo ainda fosses,

Na minha cama, casa, a respirar cada dor e ideia,

Não aceito perder-te, não me resigno com destroços,

Fora com triviais desígnios, que venha em morte a ceia.

Não sei como farei, como sobreviverei,

Mas prometo-te, com todas as letras e ar que tenho,

Que enquanto de pé conseguir estar,

Ninguém vai esquecer o teu lugar.

Quinta-feira, Dezembro 09, 2010

Doces Canaviais

A janela quadriculada ficava atrás de mim, dividida em seis por aquelas ripas de madeira que inspiram a brisa rural e o som dos animais.

Eu no alpendre, à espera, na velha cadeira de baloiço que rangia no soalho quando os meus pés se elevavam mais de quinze centímetros, escrevia palavras soltas no bloco de folhas amarelecidas pelo tempo. Palavras soltas que te descreviam minuciosamente. Perfeitamente. Do alto dos três degraus, observava a imensidão das plantações, o trigo seco e morto há anos, as crianças que imaginava a correrem por aquele enorme espaço vazio… Era Agosto e o calor fazia o meu vestido de lindo branco parecer cruelmente quente e os meus pés descalços, demasiado cobertos.

Esperava-te hoje como se fosse um dia diferente. Todos o dias me sentava ali, em frente aos canaviais e ao paraíso que imaginava se lá estivesses. Todos os dias. Talvez um deles fosse altura de tu regressares. A esperança alimentava-se do calor, confesso. Naqueles dias quentes, tinha sempre a certeza de que aparecerias dentro de poucas horas. Claro era que em todos os dias, meses e anos, essa esperança fora falsa…mas brilhava sempre com a mesma força.

Já no inverno, esperava bárbaras horas sem fim, na convicção de que eram em vão. Mas fazia-o. Sempre, sem falhar um dia.

Hoje, aguardava-te de pé, de um lado para o outro, como num filme antigo em que as imagens aparecem granuladas e com falhas. E imaginava-te a surgir por entre os reflexos que o calor provocava na estrada de alcatrão a uns metros dali. Às vezes vinhas a correr, outras vezes vinhas sereno…mas sempre tão directo a mim, sem hesitação. Vinhas com o blaser azul e as calças de ganga de quando nos conhecemos, o chapéu que te dera nos anos e a barba por fazer que tão bem combina com o teu cabelo encaracolado.

Esperava-te hoje como se fosse um dia diferente. Era dia três e tu fazias anos. Apareceste mais bonito que nunca, tão bonito como sempre e abraçámo-nos fortemente. Ficámos naquele etéreo espaço durante anos, vivemos sozinhos sem nunca ninguém te ver.

Um dia, fomos até à cidade e um dos homens de bata branca disse que eu tinha de ficar lá e que tu não podias vir, que não acreditavam em ti. Quis voltar para a nossa casinha, mas não me deixaram. Proibiram-te de entrar, mas ias visitar-me às escondidas muitas vezes.

Agora não vejo, ceguei. Mas ainda não me tiraram os olhos e continuo a poder chorar quando não estás.

Mas eu sei que vens, vens sempre e vais embora quanto tomo os comprimidos. Eles, os da bata branca, não te podem ver nunca. Não importa, não importa porque eu sei que vens.

Terça-feira, Setembro 28, 2010

A. E.

É duro quando vemos que deitámos tudo a perder,

quando os nossos erros têm consequências que não contávamos

- o que é quase sempre.

É aborrecido quando tudo aquilo que tentámos estragar, se estragou mesmo.

Extremamente desagradável, quando descobrirmos que é o ângulo recto que ferve a 90 graus e não a água, não é?

Prometemos a nós mesmos que da próxima será diferente.

E depois? Depois fazemos pior.

Será que é possível colar os bocados do que se partiu?

Será que existe cola capaz?

Eu acredito que sim.

No dia em que o deixar de fazer, não há sonhos que ainda vivam.