Segunda-feira, Março 01, 2010

Bailarina do seu Soldado

Danço em pontas olhando para ti. Um Grand Jetê, o Quebra-Nozes, três Pas de Cheval, o Lago dos Cines, dois Soubresaut ao som de Yann Tiersen. Palmas e vénias. Tu no meio da plateia. As lágrimas correm-te pela cara e tens a minha última medalha junto ao teu peito, no bolso de dentro do casaco, como de costume. O pano desceu e corro para o camarim. Rapidamente tiro os ganchos e desfaço as tranças cruzadas no topo da cabeça. As sapatilhas na prateleira, o tutu no cabide, o maiôt e os colantts dobrados à pressa e atirados para dentro do saco. O vestido enfiado de uma só vez e o laço apertado pelo caminho. Subo as escadas apressadamente e corro para os teus braços. Aperto-te com força e despeço-me de ti como se fosses agora entrar no barco.


Sou a Bailarina do meu Soldadinho de Chumbo. Sou quem em pontas se despede. Sou a boneca que fica num país de cartão e vê quem ama em guerras de papelão. Sou quem desenha esta última dança para ti.


Anos e anos a fio, quilómetros e quilómetros de distância, sonhos e pesadelos de dor. Agarro-me à música como se cada passo fosse uma âncora que não me deixa naufragar, como se fossem ondas que me obrigam a contrariar a inércia. A cada dia imagino o teu regresso, à noite sinto o teu abraço, nos teus postais envolvo-me no teu cheiro, em cada espectador vejo os teus olhos, em todos os aplausos ouço um desejo teu. Dou cada passo a saber que voltarás em breve. Em breve…


Sou a Bailarina do meu Soldadinho de Chumbo. Sou quem em pontas as tuas cartas recebe. Sou a boneca que olha para o país de cartão e pede a Deus que a leve para entre as guerras de papelão. Sou quem guarda esta última dança para ti.


Recebi uma carta fria… Diferente de todas as que me mandavas… A letra não era tua… As lágrimas correram sem forma nem peso, descontroladamente. O meu rosto não se alterou nem um milímetro. Como se tivesse congelado, olhos vazios como que entornados pelo impacto de um tiro. Impávida, sem reacção, abri a carta à qual já conhecia o conteúdo e, como se nem tivesse medo, li-a, enquanto a água e o cloreto de sódio me lavavam a cara já limpa de te esperar.

Era aquilo que tinham para me dizer, ao fim de tantos anos. Era só assim. Uma folha gelada, dentro de um envelope rude. Umas letras que me diziam que agora os meus dias já não eram uma corrida ascendente desde que nasci, mas uma conta decrescente até à morte.


Sou a Bailarina do meu Soldadinho de Chumbo. Sou quem dançou estas últimas pontas para ti. Depois disso, os meus pés tornaram-se o teu chumbo e o teu coração o meu regaço.

4 jogador(s):

Mário disse...

ahah. impressionaste-me. principalmente pelo facto de me deixares incrédulo com muita coisa, surpreso, em animação suspensa.
cada dia escreves melhor.
tem lá calminha que se não começas a escrever melhor do que eu aiaiai =)
genial*

Susahnitah* disse...

És uma bailarina muito querida e com um grande coração para partilhar com o mundo.

:D

Gosto de ti e do sorriso que todos os dias tens pronto a partilhar comigo ;)

Beijinho**

James M. disse...

Apaixonante, mesmo ;)

Observer disse...

Ola Sofia... Como estás?

Como sempre a escrever com a mesma beleza a que, penso eu e, unicamente falando por mim, nos habituaste.

Continua a escrever assim é sempre bom ler textos teus como este :)

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