Segunda-feira, Abril 19, 2010

Fragmentação de Identidade

É como se o mundo parasse num instante.

Um instante tão breve e ínfimo que julgas enorme por nem o conseguires medir.

Quando vemos algo que não conseguimos definir,

julgamo-lo sempre como poderoso e imponente.

O desconhecido é sempre maior que nós.

Tem uma arma forte, é desconhecido.


E esse momento que não é curto nem comprido

invade-te, toma-te como um amigo.

Brinca contigo e perde-te no tempo, no espaço

Abraça-te, roda-te e diz-te "ou foges ou acabas com amasso".


Aturdido dizes que estás a delirar,

é estranho, não é o teu mundo e começa a assustar.

Os teus neurónios sentem-se sozinhos,

dizes "ui, acho que estou mesmo a fritar!

Não bebi, não me droguei e já estou com os anjinhos."


Estranhas o que se passa porque sentes que não estás ali,

é o teu corpo, a tua voz, a tua vontade

"acho que combali".


Como se te observasses de fora; um terceiro elemento

que te julga e te vê sem aborrecimento,

olha calmamente como quem contempla uma obra,

sorri, discute, suspira e chora.

Nota que é ele próprio e censura-se

"O que faço deste lado? Devia estar dentro daquele corpo!"

As ideias atropelam-se e acha que está errado,

deve ser desvario, "Eu não ser Eu é tão improvável como estar morto".


E depois dás por ti a perceber que os Eles não estão ao teu lado,

que os outros são só matéria a quem dás personalidade,

algo que tu interpretas conforme o que há em ti,

sonhos, desejos, acções que vês com ou sem maldade.

Voltas ao que julgas seres Tu e pensas "foi catártico o que senti",

sem estupefacientes, psicotrópicos ou outros que tais,

espiei-me na terceira pessoa e somos todos iguais.

Vi em mim o que vejo nos meus amigos

e escondi de mim o que olho nos hostis conhecidos.


Somos pouco, somos.

Não temos utilidade, não.

Provavelmente passamos de matéria animada,

mas talvez não sejamos mais que carne maltratada.

Não é grave,

pode até ser bonito,

o que agora sei e o que sem medo admito

é que por mais que cresça,

por mais que pense,

por mais que me martirize e crave

Já não há nada que me prenda,

nada que me trave.

4 jogador(s):

James M. disse...

Olha, sabes que mais?
O Ti vai agora dar-te uma beijoca na testa, dizer-te que durmas bem, porque já é tarde e devias estar a dormir, e vai ainda dizer-te que quer apanhar-te livre e falar-te, desta vez sem caretas estúpidas ou desvios de olhares parvos, uma vez que somos crescidinhos e é a falar que nos entendemos.

Sonhos cor-de-rosa, Bebé *

o vespertino disse...

nada que te prenda? há sempre alguma coisa a prender-nos.

ainda bem que as pessoas não se conhecem umas às outras na totalidade: existem coisas que se podem interpretar de forma errada - e quando falo de forma errada falo de forma possivelmente feliz. acaso queremos dizer algo mau e somos "bem" interpretados. é bom. acho que é o que me acontece muito contigo =)

e não quero eu dizer com isto que dizes coisas más. só o digo porque houve muita coisa que eu não compreendi - não é dando significado a tudo quanto dizemos mas sim perceber a essência - porque não consegui. mas tu percebeste. e se não percebeste amanha pedes-me justificações que eu sei =)

no entanto acho que é seguro declarar que te inspiraste no que escrevi. e na óptica mais critica : está bom, mas estaria muito melhor se não rimasses. acho que o que queres transmitir é demasiadamente complicado para que te forces na criação de rimas. a não ser que tudo o que disseste é de facto teu.

digo-te isto porque às vezes quando escrevo também digo coisas que não são exactamente o que eu quero,. são aproximados, quando o objectivo é a rima.

e com isto já me alonguei em demasia,
por isso agora em tom de ironia,
mando um beijo à Sofia =)

Sofia disse...

James, o misterioso: falaremos, pois.

Vespertino, o... tu aí: sim, tens razão. acho que fugi ao que queria com a rima. daí a minha grande dúvida quanto ao texto. mas sem a rima também não me fazia sentido. e ainda para mais achei que isto tinha de ser tratado com alguma confusão e excesso de informação, mas, efectivamente, a informação não ficou clara. Enfim, falhar outra vez, falhar melhor. =) quanto à inspiração, li o teu texto, lembrei-me da nossa conversa debaixo do toldo do taborda e escrevi. de resto já não tinha minimamente em ideia as tuas palavras. ;)
boa crítica. valeu, cara!

Susahnitah* disse...

Prender há sempre alguém te prenda. Talvez não por muito tempo...

E travar...só tu te podes travar...

beijo

Enviar um comentário