Desde os primeiros dias, sabe? Desde que me apaixonei pelo seu pescoço ou pelas suas unhas roídas. Talvez tenha começado aí a minha certeza de querer fugir consigo para longe. Via os seus cabelos compridos e encaracolados descerem-lhe pelos ombros e taparem silenciosamente o seu decote branco e pensava que não havia nada mais bonito para amar.
Foi assim que fui criando toda a história.
Imaginei que podia apaixonar-se por mim.
Veja, cheguei até ao ridículo de a imaginar a amar-me, minha querida.
Sonhei que me beijava e queria ter uma casa cheia de crianças loiras e morenas, alternadamente.
Inscreve-las-íamos nas lições de piano e a menina ensiná-las-ia a cantar, dotando-as desse timbre maravilhosamente calmo com que me aquece nas noites de inverno.
Depois envelheceríamos ao lado um do outro.
Eu fazendo um chá sem açúcar como creio que deva gostar e a menina tecendo um cachecol azul para me confortar nas noites sem si.
Concebi todas estas maravilhas em mim, mas esqueci-me de algo que me parece importante.
E isso toma a dimensão de um problema grave para mim.
A menina nem sequer sabe que devia amar-me.
A menina nem sequer sonha que a conheço tão bem.
A menina casou e não foi comigo.
3 jogador(s):
Deixa-me só dizer-te isto, por muito louco que pareça: cala-te e beija-me.
Devia conhecer, não era? Não sei de onde é... elucida-me por favor, meu caro ;)
Hein?
Não vem de lado nenhum, Sofia. Nem tudo tem de ser literário, às vezes basta ser pessoal.
E não me chames caro, é incrivelmente formal. Contento-me com querido.
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