A janela quadriculada ficava atrás de mim, dividida em seis por aquelas ripas de madeira que inspiram a brisa rural e o som dos animais.
Eu no alpendre, à espera, na velha cadeira de baloiço que rangia no soalho quando os meus pés se elevavam mais de quinze centímetros, escrevia palavras soltas no bloco de folhas amarelecidas pelo tempo. Palavras soltas que te descreviam minuciosamente. Perfeitamente. Do alto dos três degraus, observava a imensidão das plantações, o trigo seco e morto há anos, as crianças que imaginava a correrem por aquele enorme espaço vazio… Era Agosto e o calor fazia o meu vestido de lindo branco parecer cruelmente quente e os meus pés descalços, demasiado cobertos.
Esperava-te hoje como se fosse um dia diferente. Todos o dias me sentava ali, em frente aos canaviais e ao paraíso que imaginava se lá estivesses. Todos os dias. Talvez um deles fosse altura de tu regressares. A esperança alimentava-se do calor, confesso. Naqueles dias quentes, tinha sempre a certeza de que aparecerias dentro de poucas horas. Claro era que em todos os dias, meses e anos, essa esperança fora falsa…mas brilhava sempre com a mesma força.
Já no inverno, esperava bárbaras horas sem fim, na convicção de que eram em vão. Mas fazia-o. Sempre, sem falhar um dia.
Hoje, aguardava-te de pé, de um lado para o outro, como num filme antigo em que as imagens aparecem granuladas e com falhas. E imaginava-te a surgir por entre os reflexos que o calor provocava na estrada de alcatrão a uns metros dali. Às vezes vinhas a correr, outras vezes vinhas sereno…mas sempre tão directo a mim, sem hesitação. Vinhas com o blaser azul e as calças de ganga de quando nos conhecemos, o chapéu que te dera nos anos e a barba por fazer que tão bem combina com o teu cabelo encaracolado.
Esperava-te hoje como se fosse um dia diferente. Era dia três e tu fazias anos. Apareceste mais bonito que nunca, tão bonito como sempre e abraçámo-nos fortemente. Ficámos naquele etéreo espaço durante anos, vivemos sozinhos sem nunca ninguém te ver.
Um dia, fomos até à cidade e um dos homens de bata branca disse que eu tinha de ficar lá e que tu não podias vir, que não acreditavam em ti. Quis voltar para a nossa casinha, mas não me deixaram. Proibiram-te de entrar, mas ias visitar-me às escondidas muitas vezes.
Agora não vejo, ceguei. Mas ainda não me tiraram os olhos e continuo a poder chorar quando não estás.
Mas eu sei que vens, vens sempre e vais embora quanto tomo os comprimidos. Eles, os da bata branca, não te podem ver nunca. Não importa, não importa porque eu sei que vens.