Segunda-feira, Janeiro 30, 2012

Entrega


Havia uma flor pequenina que te queria dar.
Todos os dias olhava para ti à espera que a quisesses.
Essa flor foi crescendo ao longo do tempo até se tornar do tamanho de uma árvore antiga.
E tu, já à sombra, reparaste nela.
Arranquei-a, montei um sistema de refrigeração automático para que nunca tivesse sede ou fome e tratei-a como um bebé frágil e que a única coisa que precisa de conhecer é afecto.
As suas folhas brancas e gordas começaram a colorir-se de um rosa forte. E o seu caule verde com uma folha catita ao estilo de desenho animado começou a ganhar vida e a dançar ao som da música.
Apaixonei-me pela flor, tanto tanto que já não a poderia largar nem deixar nas mãos de outro.
Levei-a a passear pelo parque, ensinei-a a andar de bicicleta, mostrei-lhe que as pipocas salgadas são melhores que as doces e comprei-lhe uns patins iguais aos meus.
Passou a fazer parte da minha vida e era o que me fazia feliz.
Não poderia guardá-la em nenhum lugar mais seguro do que na minha vida.

E foi aí que,
vendo os teus olhos tão brilhantes e sorridentes,
estiquei os dois braços e ta dei.

Segunda-feira, Janeiro 16, 2012

Imaginarium pela porta grande

Tanto tempo para esquecer-te e não te esquecer. Que tipo de injustiça é esta?
Prometemos a nós mesmos lembrar-nos eternamente de uns e de outros por terem sido importantes, reveladores, surpreendentes, apaixonantes… E esquecemo-nos. Sem grande aviso, sem perceber porquê, acabam por deixar de nos fazer sentido, falta. Mas e quando somos maravilhados? Quando vemos algo que é superior ao que cremos perfeito e se torna parte de nós? Um espelho dos nosso ideais, um exemplo dos nosso sonhos, uma prova do mundo inteligível? Há pessoas e há luzes. Os humanos é possível esquecer, as estrelas não. A sua memória dura mais que o tempo que viveremos aqui. Se o Sol demorará seis biliões de anos até desaparecer, quanto demorarias tu, se eu ficasse cá para ver e quisesse ver? A luz num quarto escuro, por mais pequena que seja, continua sempre a fazer-se sentir.

E o Sol, ao pé de ti, é só uma estrela.

Quinta-feira, Janeiro 12, 2012

Ressuscitar?

Há uma confusão entre o que é passado e futuro. Há uma confusão que não posso explicar. Há uma confusão que me alimenta a ilusão de que as coisas não são simples. E eu poderia viver toda uma eternidade se confiasse na simplicidade que é toda a complicação natural das coisas. Mas por causa de penas que deixei perto da janela e ousaram voar quando a abri, já não confio nisso. Quando algo parece duro e fere, é sinal que é algo para deitar fora. Era tão bom que não fosse… Era tão bom que houvesse lugar para enganos. Quando pensamos que amamos, queremos essa pessoa todos os dias ao nosso lado. Quando sabemos que amamos, temos de ter essa pessoa todos os dias ao nosso lado. Quando dizemos que amamos, amamos e isso de amar é mais forte do que parece. Domina-nos a nós mesmos e já não há grande controlo que tenhamos. E é por isso que gostamos do amor. Porque nos retira as responsabilidades e nos deixa planar.

E ela é explicativa e comenta. E é só uma introdução para algo que terá de ser diferente. E isso é simples. Simplesmente complicado. Por isso está tudo bem.